Cirugia • 04/09/2026
Receber um diagnóstico de cancro da mama é um momento que pode gerar muitas dúvidas e emoções. Entre as perguntas que surgem, existe uma particularmente frequente:
“Vou ter de retirar a mama?”
A resposta é não: a mastectomia nem sempre é necessária.
Atualmente, muitas mulheres podem ser tratadas através de cirurgia conservadora, removendo o tumor e preservando a restante mama, sem comprometer a segurança do tratamento.
A escolha depende das características da doença, da anatomia da mama, dos restantes tratamentos previstos e das preferências de cada mulher.
O tratamento cirúrgico é igual para todas as mulheres?
Não. O tratamento deve ser individualizado e planeado tendo em conta diferentes fatores, nomeadamente:
-
O tamanho e a localização do tumor;
-
A relação entre o tamanho do tumor e o volume da mama;
-
A existência de um ou mais focos de doença;
-
A extensão das alterações identificadas nos exames;
-
As características biológicas do tumor;
-
A possibilidade de obter margens cirúrgicas livres;
-
A necessidade e a possibilidade de realizar radioterapia;
-
A resposta a um eventual tratamento sistémico antes da cirurgia;
-
Os antecedentes clínicos da mulher;
-
As suas expectativas e preferências, sempre que existam alternativas igualmente seguras.
O objetivo é obter o melhor controlo da doença, procurando simultaneamente preservar a mama, a sua forma e a qualidade de vida sempre que isso seja oncologicamente seguro.
O que é a cirurgia conservadora da mama?
A cirurgia conservadora consiste na remoção do tumor, juntamente com uma margem de tecido mamário em seu redor, preservando a restante mama.
Pode receber diferentes designações, como tumorectomia, quadrantectomia ou cirurgia conservadora, consoante a extensão e o tipo de procedimento realizado.
Após a cirurgia, o tecido removido é analisado para confirmar, entre outros aspetos, as características do tumor e o estado das margens cirúrgicas.
Na maioria das mulheres, a cirurgia conservadora é complementada por radioterapia da mama. Existem algumas situações muito selecionadas em que a radioterapia pode ser omitida, mas essa decisão deve ser tomada individualmente pela equipa multidisciplinar.
A cirurgia conservadora é tão segura como a mastectomia?
Quando está corretamente indicada e é associada aos restantes tratamentos necessários, sim.
Os estudos demonstram que, em muitas mulheres com cancro da mama inicial, a cirurgia conservadora seguida de radioterapia proporciona uma sobrevivência equivalente à da mastectomia.
Isto significa que remover toda a mama não oferece automaticamente maior probabilidade de cura.
A mastectomia pode reduzir o risco de uma recidiva na própria mama ou parede torácica em determinadas situações, mas não elimina totalmente esse risco. Também não evita a possibilidade de a doença surgir noutro local, que depende sobretudo das características biológicas e da extensão do tumor.
Por isso, uma cirurgia mais extensa não significa necessariamente um tratamento mais eficaz ou mais seguro.
Que papel tem a cirurgia oncoplástica?
A cirurgia oncoplástica combina princípios da cirurgia oncológica e da cirurgia plástica.
Estas técnicas permitem remover uma maior quantidade de tecido e remodelar a mama durante a mesma operação. Em alguns casos, pode também ser realizada uma intervenção na mama oposta para melhorar a simetria.
A cirurgia oncoplástica pode tornar possível preservar a mama em situações que, no passado, conduziriam mais frequentemente a uma mastectomia.
Contudo, nem todas as mulheres são candidatas às mesmas técnicas. A indicação depende da localização e extensão do tumor, do volume mamário, do grau de ptose, dos tratamentos previstos e das preferências da mulher.
O tratamento antes da cirurgia pode permitir preservar a mama?
Em algumas situações, sim.
A quimioterapia, a hormonoterapia ou outros tratamentos sistémicos podem ser administrados antes da cirurgia. Esta abordagem é conhecida como tratamento neoadjuvante.
Além de permitir avaliar a resposta do tumor ao tratamento, pode reduzir a sua dimensão e possibilitar uma cirurgia conservadora em mulheres para quem essa opção não seria inicialmente viável.
A resposta ao tratamento neoadjuvante pode alterar o tipo de cirurgia possível, mas a decisão não depende apenas do tamanho residual do tumor. É necessário considerar a extensão inicial da doença, a sua localização, o padrão de resposta e os exames realizados após o tratamento.
Quando pode ser recomendada uma mastectomia?
A mastectomia pode ser a opção mais adequada quando:
-
A extensão da doença é demasiado grande em relação ao volume da mama;
-
Existem focos tumorais distribuídos por zonas da mama que não podem ser removidos com um resultado oncológico e estético aceitável;
-
Persistem margens cirúrgicas com doença após tentativas adequadas de cirurgia conservadora;
-
Existe uma contraindicação relevante para radioterapia e esta seria necessária após conservação da mama;
-
Existe uma recidiva numa mama previamente submetida a cirurgia conservadora e radioterapia, embora possam existir exceções;
-
Está presente uma variante genética patogénica ou outra situação de risco elevado e, após discussão das alternativas, a mulher opta por mastectomia;
-
A própria mulher prefere esta abordagem depois de conhecer os benefícios, limitações e possíveis complicações das diferentes opções.
Nenhum destes fatores deve ser interpretado de forma isolada. Por exemplo, a presença de mais do que um foco tumoral ou de um tumor relativamente grande não determina automaticamente a necessidade de mastectomia.
A mastectomia evita a radioterapia?
Nem sempre.
Algumas mulheres submetidas a mastectomia não necessitam de radioterapia. Noutras situações, a radioterapia da parede torácica e das áreas ganglionares continua indicada, dependendo, por exemplo, do tamanho do tumor, do envolvimento dos gânglios, das margens e de outros fatores de risco.
Por isso, não se deve escolher uma mastectomia partindo do princípio de que esta evitará necessariamente a radioterapia.
Como é tomada a decisão?
A escolha resulta da análise conjunta de toda a informação disponível:
-
Exame clínico;
-
Mamografia, ecografia e, quando indicada, ressonância magnética;
-
Resultado da biópsia;
-
Características biológicas do tumor;
-
Extensão da doença na mama e nos gânglios;
-
Resposta ao tratamento realizado antes da cirurgia;
-
Condições clínicas e preferências da mulher.
O caso é frequentemente discutido numa reunião multidisciplinar com profissionais de diferentes especialidades.
Quando existem várias opções igualmente seguras, a decisão deve ser informada e partilhada. A mulher deve compreender as vantagens, limitações e consequências de cada alternativa, incluindo a recuperação, a necessidade de radioterapia, o resultado estético e o risco de novas intervenções.
Escolher uma mastectomia na mama afetada protege a outra mama?
Não diretamente.
A remoção da mama onde foi diagnosticado o tumor trata essa mama. A eventual remoção da mama saudável é uma decisão diferente, denominada mastectomia contralateral redutora de risco.
Na maioria das mulheres sem uma predisposição genética ou familiar importante, retirar a mama saudável não demonstrou aumentar a sobrevivência. Além disso, aumenta a duração e a complexidade da cirurgia e pode elevar o risco de complicações.
Esta possibilidade deve ser discutida individualmente, sobretudo quando existe uma variante genética patogénica, história familiar relevante ou outro fator de risco elevado.
E se for necessária uma mastectomia?
Quando a mastectomia é a opção mais adequada, pode existir a possibilidade de preservar parte da pele da mama e, em casos selecionados, o mamilo e a aréola.
Estas técnicas dependem da localização e extensão do tumor, das características da mama, da circulação dos tecidos e do tipo de reconstrução planeado.
A reconstrução pode ser:
-
Imediata, realizada na mesma intervenção da mastectomia;
-
Diferida, realizada numa operação posterior;
-
Com implante ou expansor;
-
Com tecidos da própria mulher;
-
Uma combinação destas opções.
Também é legítimo optar por não realizar reconstrução mamária.
Nem todas as mulheres são candidatas às mesmas técnicas, e a reconstrução não elimina todas as consequências físicas e emocionais da mastectomia. A decisão deve considerar os tratamentos previstos, os riscos cirúrgicos e as prioridades de cada pessoa.
A reconstrução interfere com o tratamento do cancro?
Quando adequadamente planeada, a reconstrução mamária é compatível com o tratamento oncológico.
No entanto, a possibilidade de radioterapia, o tipo de tumor, o estado geral da mulher e o risco de complicações podem influenciar o momento e a técnica de reconstrução.
Por isso, sempre que se prevê uma mastectomia, é importante discutir antecipadamente as possibilidades reconstrutivas, mesmo que a reconstrução não seja realizada de imediato.
Conclusão
A mastectomia não é sempre necessária no tratamento do cancro da mama.
Muitas mulheres podem realizar cirurgia conservadora, geralmente seguida de radioterapia, com uma segurança oncológica equivalente à da mastectomia. A cirurgia oncoplástica e os tratamentos realizados antes da operação ampliaram ainda mais as possibilidades de preservar a mama.
Quando a mastectomia é necessária ou escolhida de forma informada, podem existir diferentes opções de reconstrução — ou a possibilidade de não reconstruir.
Cada decisão deve ser individualizada, baseada nas características da doença e discutida com uma equipa diferenciada em patologia mamária.
A melhor cirurgia não é necessariamente a mais extensa: é aquela que trata a doença com segurança e melhor se adapta à situação e às prioridades de cada mulher.